Dizem que uma das técnicas usadas para vencer um trauma é falar sobre ele, então eu vou tentar…

Ontem, dia 09 de janeiro, retornei das férias coletivas e fui trabalhar da mesma forma que sempre fiz durante todo o ano de 2011. Porém nesse primeiro dia de trabalho do ano novo, as coisas não sucederam conforme o esperado.

Ao voltar do trabalho, o meu marido me buscou no metrô Jabaquara, e seguimos de carro até a nossa casa. Porém nesse percurso sofremos assalto à mão armada, em um semáforo no bairro Campanário em Diadema.

Como sempre nós estávamos com as janelas fechadas e por um momento eu não compreendi que se tratava de um assalto, pois o roubo foi realizado por um casal, sendo que ambos chegaram pelo lado do motorista, com o homem à frente e a mulher na porta de trás.

Só compreendi que se tratava de um assalto quando percebi o bandido forçando a maçaneta e dizendo “desce do carro, pra não acontecer nada pior”. Então eu entrei no modo automático, pensei algumas bobagens e saí do carro feito um zumbi, atravessando duas faixas sem olhar para os carros e chegando até a calçada oposta.

Durante essa inerte caminhada eu ouvi o homem dizer para eu deixar a bolsa, mas eu não tive reação de retornar ao carro e, inconscientemente, acabei arriscando a minha vida e a de meu marido. Sendo esse o maior peso que levo em meus ombros, pois me culpo por isso e não consigo pensar diferente.

Mas eu só consegui olhar para trás quando cheguei à calçada e vi meu marido na calçada oposta telefonando, certamente para o 190. Por sorte seu celular estava no bolso, ao contrário de sua carteira e óculos de grau (pois ele estava dirigindo com os óculos de sol).

Então desfaleci, caí de joelhos na calçada e o carro de uma família parou em meu auxílio, sendo que a mulher desse carro me guiou até uma padaria próxima para que eu e meu marido pudéssemos nos recompor. O Daniel estava calmo, um grande homem, e assim fez ligações para polícia, seguro e banco. Mas em compensação o meu nervosismo valia por dois, e ainda vale.

Mas antes de chegarmos na padaria aconteceu algo que seria fundamental para o desenrolar da longa noite, que durou até às 2 horas da madrugada na delegacia de Diadema.

Enquanto eu estava na calçada, um carro hatch preto (provavelmente um Gol) parou bruscamente ao meu lado e o motorista perguntou o que tinha acontecido, qual era o carro e para onde eles tinham ido. E com essas informações esse homem desconhecido saiu cantando pneus. Acho que esse é o som que os anjos fazem quando cantam.

Então eu e meu marido ficamos quase uma hora na padaria, onde um grande amigo nosso veio nos buscar para levar à uma delegacia próxima para registrarmos o B.O. Porém ao chegar lá ficamos sabendo que o nosso carro havia sido localizado no bairro Eldorado em Diadema, e os bandidos foram pegos em flagrante.

Assim seguimos para a delegacia onde estava o nosso carro e os dois policiais que fizeram a abordagem, graças ao telefonema do Daniel ao 190 simultaneamente ao telefonema do anjo do carro preto, que seguiu o nosso carro e foi passando as coordenadas para a polícia até quando conseguiu mantê-lo à vista.

Porém quando o carro preto perdeu o nosso carro, a polícia já havia fechado o cerco na região, e uma viatura com dois corajosos homens avistaram nosso carro na Estrada do Rufino, e sem hesitar jogaram a viatura na frente do nosso carro (que vinha no sentido contrário) e desceram já com as armas em punho, rendendo os bandidos sem colisão nem troca de tiros.

E a noite só estava começando, pois o roubo em flagrante necessitava de depoimentos individuais de todos os envolvidos, reconhecimento dos bandidos e da arma, verificação do carro, e assinatura em milhares de papéis, que eu já nem conseguia ler de tantas lágrimas, sono, fome e dores no corpo devido à tensão muscular e na cabeça devido à tensão psicológica.

Mas o pior foi quando a família dos bandidos nos reconheceram em meio as pessoas da delegacia como sendo as vítimas, o que só colaborou para aumentar a minha tensão, já que desse tipo de gente pode-se esperar de tudo. E por isso já estou pensando em mudar a cor e o corte do meu cabelo, pois é uma das características que mais chamam a atenção em mim. Mas e o Daniel?

E além de tudo que passamos ontem, a história continua. Pois os bandidos estão tentando livrar a mulher da prisão, pois o homem já é reincidente, mas a mulher não. E assim eles alegaram em seus depoimentos que ela não estava presente no momento do assalto, e que o bandido deu uma carona pra ela no caminho. Assim o caso seguirá para o tribunal, onde seremos chamados para depor e reconhecer a arma novamente daqui uns 4 ou 5 meses, e onde não poderemos faltar, senão os bandidos serão soltos. E depois disso o processo seguirá por mais 2 anos até a sentença final.

Ou seja, pelo jeito esse trauma irá permanecer em minha vida por muito tempo ainda. Mas apesar disso preciso encontrar uma forma de relaxar, pois hoje não fui trabalhar e passei o dia em casa, tensa, chorando, dormindo para tentar não pensar, com dores no corpo e na cabeça, tão zumbi quanto no momento do assalto.

Só espero que amanhã eu esteja melhor, quando provavelmente vou ligar para e minha chefe e ver se posso trabalhar em casa, até que eu me recupere mais um pouco. Só mais um pouco. Pois eu me coloquei o prazo máximo de quinta-feira para eu estar novamente na rua, no metrô e no trabalho, senão o trauma não irá passar nunca.

Segunda eu sofri. Terça eu morri. Quarta eu renascerei. E quinta eu explorarei o mundo novamente, mesmo que seja molhada com as minhas lágrimas.

Somente vou tentar mudar o caminho, talvez pegar o trem em Santo André invés do metrô no Jabaquara, apesar do trânsito até lá ser bem pior. Ainda não sei. Mas certamente vou reduzir os meus pertences de uma bolsa para um estojo, e vou me privar do pouco conforto que eu tinha ao carregar um guarda-chuva, uma garrafa d’água e um iPod. Porém acho que não conseguirei fazer diferente, pelo menos por enquanto.

Contudo não sei dizer quanto tempo irá durar esse “por enquanto”…

Mari Espada.