Vivendo na Alemanha eu aprendi uma coisa sobre o Brasil… Os laboratórios de exames, as cirurgias eletivas e a indústria farmacêutica minaram a nossa cultura e o nosso jeito de pensar a saúde. E isso está tão enraizado que torna-se difícil deixar alguns vícios.

O primeiro choque cultural que eu tive, na área da saúde, foi quando o pediatra retirou o remédio que o Arthur tomou desde os 28 dias de vida para tratar o refluxo. O médico é especialista em gastroenterologia, portanto eu confiei em sua opinião. Ele explicou que, no início do tratamento, o remédio agiu bem na recomposição do tecido da garganta, que tinha sido corroído pelo ácido estomacal. Mas que após esse uso emergencial, o remédio tornou-se desnecessário, pois ele não iria curar o refluxo em si. A cura viria com o tempo e amadurecimento da válvula estomacal, ou então seria caso de uma futura cirurgia. Assim, tiramos os remédios e o Arthur permaneceu com os mesmos sintomas atuais (soluços quando gargalha muito) e só, nem mais nem menos.

Além disso, o pediatra também achou desnecessária a prescrição de vitamina C e Ferro, e manteve apenas a vitamina D, já que na Alemanha temos pouca exposição a luz solar. Ou seja, dos 5 remédios e vitaminas que o Arthur tomava, apenas 1 foi mantido!

Outra coisa louca foi sobre a fimose do Arthur. No Brasil a pediatra havia dito que passaria uma pomada quando ele fizesse 1 ano e, caso não resolvesse dessa forma, que faria uma cirurgia com 2 anos. Mas aqui na Alemanha a postura do médico é esperar até 8 ou 9 anos de idade, pois até lá a fimose pode se resolver naturalmente, e sem nenhuma de pomada na história. E caso haja inflamação durante esse período, trataremos disso. Mas por enquanto não há mais nada que precise ser feito, apenas aguardar a natureza (sem dar o crédito da cura para uma pomada e o nosso dinheiro para a indústria farmacêutica!)

Outra diferença são as consultas de rotina, que não acontecem todo mês no primeiro ano de vida, como era no Brasil. O desenvolvimento do bebê é avaliado conforme datas pré-estabelecidas no calendário de saúde nacional. E em caso do bebê ficar doente, faremos uma consulta emergencial para tratar o problema, mas nada de avaliar peso, altura e tudo o mais em toda santa consulta. E nem de dar pitaco nos cuidados e alimentação do bebê. Se está tudo indo bem no desenvolvimento, ninguém te pergunta se ele come papinha sólida ou mama no peito.

As datas das consultas e exames de rotina são as seguintes:

  • U1 ao nascer
  • U2 com 10 dias
  • U3 com 1 mês
  • U4 com 3 meses
  • U5 com 6 meses
  • U6 com 1 ano
  • U7 com 2 anos
  • U7a com 3 anos
  • U8 com 4 anos
  • U9 com 5 anos

O Arthur iniciou o acompanhamento aqui na Alemanha no U6, e uma coisa que eu achei muito interessante foi o exame oftalmológico. Pois o médico utilizou uma máquina automática, que consegue analisar o grau através de uma foto dos olhos do bebê. E também achei super prático que a vacinação é dada pelo próprio pediatra durante a consulta. E o calendário de vacinação é bem parecido com o do Brasil, apenas divergindo no número de doses e reforços, e na época em que cada vacina é tomada. Mas algo que achei muito bacana, foi que o pediatra nos perguntou sobre nossa próxima viagem ao Brasil e consultou qual vacina deveria acrescentar de acordo com os riscos da região. Assim, o Arthur irá tomar uma vacina que não está no calendário alemão (pois aqui não há risco), nem no brasileiro (mas deveria estar!), contra uma gama maior de subgrupos da meningocócica (que vai de A até Y). Tanto no Brasil como na Alemanha está previsto tomar apenas a vacina contra o subgrupo C, e aqui na Alemanha estão em fase de testes para o subgrupo B.

Resumindo: Sem remédios, sem cirurgia, sem exames desnecessários. Isso pode parecer descaso para os costumes brasileiros. Mas não. É apenas uma forma mais natural e menos lucrativa de cuidar da saúde. Portanto, se você esperava que num país de primeiro mundo teriam mais coisas, que você poderia aproveitar para o seu filho no Brasil, sinto muito. Aqui os problemas não são tratados antes de surgir, tratar da saúde feito “Minority Report” é coisa de Brasil, hehehe.

Mari.