CRECHES NA ALEMANHA

Na Alemanha as escolas funcionam com uma parceria público-privado com sistema de voucher (*) desde a creche (chamada de Kita – abreviação de Kindergarten) até a universidade. Mas é culturalmente esperado que as crianças iniciem sua vida escolar somente após os 3 anos, e em casos de necessidade após 1 ano de vida.

Antes disso o bebê deve permanecer com a mãe ou o pai, que possuem uma licença de trabalho de 2 meses pagos pela empresa + 12 meses pagos pelo governo para dividirem entre si. Esse tempo pode ser estendido até 3 anos com estabilidade de emprego, mas sem remuneração.

Após completar 1 ano, todos tem direito a uma vaga de meio período (até 5hs) na creche. Mas filhos com ambos os pais estrangeiros podem permanecer até 7hs, visando maior contato com o idioma alemão. Já após completar 3 anos, todos ganham o direito de permanecer na creche por até 9hs, caso queiram.

Famílias de baixa renda, onde ambos os pais precisam trabalhar antes do bebê completar 1 ano, adquirem o direito de colocar seu filho na creche antes do tempo, mas isso é exceção.

SISTEMA ESCOLAR

A obrigatoriedade do estudo se inicia somente ao 6 anos de idade, quando as crianças seguem para a escola primária (chamada de Grundschule).

Para saber mais sobre o sistema escolar alemão a partir de então, leia esse texto:
http://www.brasileiraspelomundo.com/alemanha-ensino-do-maternal-a-universidade-391435552

FALTA VAGA

Todas as crianças tem vaga obrigatória e garantida na escola aos 6 anos, mas antes disso as coisas não são tão simples assim.

Há uma oferta de vagas abundante após os 3 anos de idade, mas antes disso a falta de vagas é absurda! Pois, por questões culturais, apenas 15% das vagas de creche (de 1 a 6 anos) são direcionadas para as crianças menores (até 3 anos).

Isso gera uma espera de vários meses (já soube de pessoas que esperaram 2 anos!) para conseguir uma vaga antes dos 3 anos de idade. E por isso muitos pais colocam o nome do seu bebê nas listas de espera das creches ainda durante a gestação. Pois só assim a mãe consegue retornar ao trabalho após o término da licença maternidade (que é de 14 meses).

Mas essa não foi a minha realidade, pois quando chegamos na Alemanha o Arthur já estava com 9 meses de idade. E não dá pra pegar o bonde andando e querer sentar na janelinha, né?

Então, para correr atrás do tempo perdido, assim que estabelecemos residência eu escrevi para 46 creches da minha região (sim, quarenta e seis!). E mesmo assim precisei reduzir um pouco as minhas expectativas sobre a creche, mas também não aceitei qualquer vaga tosca que apareceu não. Fala sério!

Dessa forma, após 8 meses de espera, finalmente conseguimos uma vaga para o Arthur inciar em novembro de 2017, após ele completar 1 ano e meio de idade.

NOSSA CRECHE

A creche onde conseguimos vaga trabalha com a metodologia Montessori, que estimula a independência da criança, e aos olhos adultos pode parecer um jeito bagunçado de educar.

Por isso o nome “Drunter und Drüber”, que soa engraçado ao ouvidos alemães, de quem recebemos explicações de seu significado. É difícil traduzir, passa a idéia de caos, sim caos! Mas no sentido de que as crianças são livres para experimentar e aprender brincando. Eu gosto de pensar que “Do caos nasce a ordem”, mas secretamente vou chamar de “Feira da fruta” para manter o humor. 😀

Além disso, a creche tem alimentação vegetariana, aula de música, passeios toda sexta-feira e uma rotina de atividades bem legal. Claro que tem vários detalhes culturais daqui que ainda precisamos nos adaptar, como brincar na chuva ou não limpar o nariz das crianças resfriadas – ambos em pról da imunidade! Mas ok, isso faz parte do “pacote de alemanização”.

A creche fica no meu bairro (Charlottenburg) a 15min andando ou 5min de bicicleta da nossa casa. São apenas 13 crianças de 1 a 6 anos, todas juntas numa turma única com 4 educadores. Todos os ambientes são internos, mas existe 1 parque enorme (Schloss Charlottenburg) e 1 praça lá pertinho, ambos com estrutura de parquinho para as crianças brincarem. Aqui todas as creches frequentam parquinhos públicos e passeiam com as crianças pela cidade (inclusive pegando transportes público), visando ensinar autonomia e cidadania desde pequenos.

Mas existem creches com estrutura completamente diferentes dessa. Algumas tem mais cara de escola, com mais alunos e mais turmas. Outras são a céu aberto, dentro da floresta (os alemães adoram isso, mesmo no inverno). E outras são chamadas de taggesmutter, que na verdade é uma babá licenciada pelo governo para receber e cuidar de algumas crianças em sua própria casa.

(*) São tantas diferenças porque aqui na Alemanha as escolas funcionam com uma parceria público-privado com sistema de voucher. Então a estrutura física, a metodologia de ensino e os profissionais fazem parte de uma empresa privada, porém o pagamento da “mensalidade” de cada aluno é feito pelo governo – que também decide quantas vagas de cada faixa etária cada escola poderá oferecer.

Por isso não adianta abrir mais e mais creches, pois a escassez de vagas de 1 a 3 anos irá continuar enquanto o governo não direcionar verba para isso. E nós não temos para onde correr, pois não há opção de ensino privado de verdade, onde basta pagar do próprio bolso para ter a vaga.

Definitivamente, aqui não dá pra pegar o bonde andando e sentar na janelinha! O jeito é esperar uma vaga, ou engravidar aqui na Alemanha para poder se planejar desde o começo.

QUESTÃO POLÍTICA

No fim das contas, esse modo de administrar o ensino me parece politicamente eficiente, pois o governo centra seus esforços na administração dos recursos e consequente repasse às instituições privadas. Isso enxuga a responsabilidade pública e este foco certamente traz benefício: a escola contrata, forma pessoal, estuda metodologias (que serão escolhidas pelos pais à medida que optam por esta ou aquela escola), compra material, etc.

Isso significa economia diante do modelo brasileiro, que incha a máquina com funcionários públicos e suas regalias, licitações pra merenda, material e uniforme.  Isso sem considerar as brechas pra corrupção, improbidade administrativa e gastos desnecessários, hein!

Além disso o critério parece coerente ao garantir vagas aos mais velhos, em idade escolar ou pré escolar. Realmente seria necessário aumentar a demanda, mas isso significa ter dinheiro pra bancar.  E num país organizado como a Alemanha isso vai acontecer quando houver certeza da capacidade financeira.

O mundo vive uma crise, uns países mais outros menos, mas a austeridade tem sido um critério pra garantir estabilidade,  sobretudo na Europa que vive uma crise humanitária em função do número elevado de refugiados.

Mari.

PS: Esse texto contém trechos de uma conversa com minha cunhada e madrinha do Arthur – Luciana Campos Bechelli – pois ela explicou com excelência a questão política do ensino alemão. Obrigada Lu! 

Atualização

Nem toda história tem um final feliz. Infelizmente esse Kita não deu certo!

Para saber mais, leia esse texto:

Perigos no Kita (terceira semana e nunca mais!)