Quando a pratica difere da teoria, o encantamento acaba num piscar de olhos.

Desde a conquista da vaga após 8 meses de espera até as primeiras semanas de adaptação no Kita, eu estava “cega” de positividade, até que… Encontrei uma bola de gude na boca do meu filho ( ! ) e isso abriu meus olhos para tudo o que eu não queria ver!

Sim, havia uma bola de gude num ambiente com 17 crianças de 1 a 6 anos, que as vezes passam longos minutos (talvez horas!) sem a supervisão de um adulto. E isso foi só a última gota d’água dessa tempestade…

Mas antes de tomar qualquer atitude, eu busquei enxergar a realidade por outros olhos, na esperança de perceber que isso não passava de um choque cultural, e que eu precisaria me adaptar para sobreviver.

Mas não! Conversando com outras mães brasileiras na Alemanha (através de um grupo no Facebook) relatei a minha insegurança:

“Meu filho está em adaptação num pequeno Kita com 17 crianças de 0 a 6 anos. São 3 pessoas trabalhando lá (1 educador, 1 estagiária e 1 cozinheira) porém em 8 dias eu já constatei 4 dias onde o educador e/ou a estagiária estavam ausentes. Sendo assim, as crianças ficam muito tempo sem supervisão direta de um adulto!

Mesmo quando todos os funcionários estão presentes, já vi acidentes que passaram despercebidos, necessidades e choros que não foram atendidos, e brigas que não foram apartadas. Pra piorar os ambientes do Kita oferecem alguns perigos, dentre os quais peças muito pequenas (como uma bolinha de gude que eu resgatei da boca do meu filho!), acesso livre ao banheiro (incluindo vaso sanitário) e à cozinha (incluindo fogão e lixo), algumas portas que as crianças maiores vivem fechando na cara das menores, e algumas janelas abertas com acesso à rua (andar térreo).”

E assim eu recebi muitos comentários com a experiência e opinião de cada mãe, que também precisou passar por uma adaptação cultural com seus filhos. E todas elas foram enfáticas em dizer que esse número de funcionários era inaceitável. Havia muito perigo pra pouco adulto.

E veja, os alemães incentivam muito (muito mesmo!) a independência e autonomia de suas crianças… Por exemplo, é comum os Kitas ensinarem a mexer com faca, com fogo, e coisas assim. Além de também ser hábito saírem para passear pela cidade usando transporte público. Mas tudo isso é feito com a supervisão constante de um adulto, com olhos atentos para evitar acidentes antes que eles aconteçam.

Não vou negar… absorver essa informação foi como ter pedalado kms na direção errada, para então descobrir que estou cansada, sem água, com pneu furado e longe do meu destino. Sorte que o ciclismo me ensinou a superar a vontade de desistir. E tudo bem se eu precisar empurrar em algumas subidas… Pode demorar, mas eu vou chegar!

Apesar da escuridão desse inverno e das sequelas desse período de adaptação, que tanto prejudicou a nossa saúde e destruiu a excelente alimentação do Arthur: Eu vou chegar onde quero!

E serei mais exigente, pois descobri que existe uma recomendação de ter, no mínimo, 1 cuidador para cada 5 crianças em grupos de 1 a 3 anos (sem contar a cozinheira!). Já em grupos de 3 a 6 anos é permitido 1 cuidador para cada 12 crianças. E todos devem estar sempre presentes ou com possibilidade de serem substituídos em caso de falta.

Agora só me resta esperar uma nova vaga num Kita mais estruturado, do jeitinho que o Arthur merece! Afinal, nós viemos pra Alemanha para oferecer uma vida melhor pra ele, e não podemos nos contentar com qualquer coisa. Ainda mais quando isso fere o quesito segurança, que deve vir sempre em primeiro lugar!

Mari.